Zak Starkey: “Tive sorte pela chance de tocar esse tipo de música”

Foto: Marcos Hermes

“É preciso ser forte quando as coisas ficam difíceis”, brada, em nota, o jamaicano Frederick “Toots” Hibbert. Esse músico de 77 anos é um de nossos vínculos com os primórdios do reggae. E na sexta-feira (28) lançou o novo álbum de sua banda, Toots And The Maytals.

Got to Be Tough (Trojan Jamaica/BMG) encerra um hiato de nove anos sem um registro de inéditas. Ao tino ímpar pra coisa, Toots contou com instrumentistas gabaritados: Sly Dunbar (bateria/Sly & Robbie), Cyril Neville (percussão), Lisa Davis Palmer (vocais) e Zak Starkey (guitarra).

De participações, foram duas mais que especiais: Ziggy Marley, filho de Bob Marley, e Ringo Starr, aquele! Ambos gravaram uma bela releitura de Three Little Birds, sendo que o ex-beatle, um assumido grande fã de reggae, ainda colaborou com Having a Party.

Como o ícone jamaicano não pôde nos atender, foi Starkey quem deu a palavra. Ele é cofundador do selo Trojan Jamaica, junto com Sharna “Sshh” Liguz (na foto acima, junto com Zak). Mas o cara carrega outros atributos, entre os quais já ter sido do Oasis e integrar o emblemático The Who. Do ponto de vista da curiosidade, a seu favor também conta o sobrenome. Sim, ele é filho do Ringo Starr.

Esse é o primeiro álbum de inéditas da banda em quase uma década. O Toots passou por altos e baixos nos últimos anos. Como transformaram tudo isso nas músicas que ouvimos no álbum?
O Toots enviou à Trojan Jamaica 35 canções em versões demo. Sshh e eu escolhemos dez que se combinavam melhor. Fomos à Jamaica e mostramos nossa ideia. Ele aprovou as que escolhemos e o que tínhamos em mente para a pegada do disco, além de título e arte de capa.

Passamos cinco dias no estúdio da Trojan Jamaica em Ocho Rios, Jamaica, com Toots, Sly Dunbar e Cyril Neville. Adicionamos guitarra, bateria e percussão – tudo sob a orientação do Toots, que toca todos os demais instrumentos, exceto sopros.

Finalizei os overdubs em Los Angeles, enquanto tocava por lá com o Who. Sshh e eu editamos as faixas no Reino Unido. De volta a Los Angeles, Dave Sardy mixou o material, juntamente comigo e Toots supervisionando. O Dave é um amigão. Foi ele quem mixou o disco da Sshh e que produziu os dois álbuns do Oasis em que toco bateria, além do recente Who [2019], do Who. Além destes, produziu o próximo lançamento da Trojan Jamaica, Solid Gold U-Roy.

O reggae raiz do Toots tem sempre um toque de outros estilos. O trabalho de guitarra deu uma cor extra, desta vez. Ficaram ótimos os solos da faixa-título. Qual foi sua influência nesse quesito?
O Toots toca o primeiro solo em Got to be Tough e eu, o final. Ele é um ótimo guitarrista de blues! As partes de guitarra surgiram, basicamente, de um amplificador com o volume bem alto virado diretamente para mim e o Toots. Ele ia cantarolando ideias para a guitarra e eu ia desenvolvendo rapidão – ele trabalha com agilidade quando está gravando.

Em estúdio, o Toots é exigente e bem divertido. Essa atitude é inspiradora para mim, musicalmente – é parecido com o Who. Preparamos três músicas para outras gravações do Toots antes de fazer Got to be Tough, e ele é sempre incrível! Sshh e Toots também fizeram um dueto numa versão ska de Bang a Gong (Get it on), do T.Rex, a qual sairá no próximo ano.

A versão de Three Little Birds, de Bob Marley, soa bem legal porque não saiu de um jeito óbvio.
Ficou uma ótima versão, realmente, e turbinada pela energia incrível de Sly Dunbar! Toots e Ziggy combinaram suas vozes de maneira brilhante. Aquela ideia do solo de sitar foi algo que gravei em Los Angeles enquanto concluía os overdubs. Usei uma sitar elétrica da Coral.

Ziggy Marley parece ser um convidado manjado, mas Ringo Starr? Como ele foi parar no álbum?
Meu pai adora música jamaicana! Me apresentou o Man in the Hills, do Burning Spear, quando eu era bem jovem. Concluí os overdubs em Los Angeles, no estúdio dele, que curtiu pacas o disco do Toots. Me falou que Three Little Birds precisava de um pandeiro e que Having a Party, de um cowbell. Meu pai gravou ambas em um take!

Got to be Tough [na tradução livre, “Tem que Ser Forte”] sai em um período difícil, por conta da covid-19. A pandemia trouxe um significado especial ao disco?
O Toots sempre foi muito cuidadoso em relação à saúde e especialmente à transmissão de doenças. É por isso que inventou o “cumprimento sem fio”, em que você não encosta as mãos. A letra de Got to be Tough refere-se a todas as épocas, mas claro que se tornou particularmente relevante agora. Todos devem ser fortes quando os tempos são difíceis.

Qual é sua leitura acerca da música do Toots and the Maytals?
Voz, mensagem, significado, atitude, verdade e “riddim” [ritmo, na pronúncia em patoá jamaicano da palavra Inglesa rhythm].

O que é tocar reggae para você?
Reggae é um gênero muito disciplinado, musicalmente. Tive sorte por terem me dado a chance de tocar esse tipo de música!

Você é filho de Ringo Starr, toca/tocou bateria para nomes como The Who e Oasis, tem um selo de reggae, gravou com o Toots. Quem é o músico Zak Starkey?
Música é tudo para um punk de Londres!