Loucura!

Tem um pessoal trabalhando aqui perto de casa há uns dias. Dá pra ouvi-los conversar, e às vezes presto a atenção. São normalmente humorados.

Um deles tem a mania de falar “loucura!” pro que os colegas contam. Sempre na graça. As histórias são as mais variadas e problemáticas possíveis: um negócio ruim que o amigo fez; o fulano que reclamou de um serviço; o futebol; a birita do fim de semana… E tudo o cara pontua com “loucura!”.

Hoje viajei nisso. Estava alimentando o péssimo hábito de olhar o LinkedIn, a rede social das falsas ilusões e das colocações motivacionais mais chulés (e compartilhadas).

Minha viagem foi que “loucura” virou um clichê das pieguices que vemos nos feeds de gente-que-um-dia-resolveu-apostar-nos-sonhos. Fiquei pensando na perda de sentido sofrida pela expressão “loucura”.

Em meio ao mundaréu de burnouts postados – reais e de autoestima –, dá a impressão que loucura é a tal chavinha de mindset que se vira para que então as mais belas storytellings aconteçam.

Uma postagem dizia algo como: “Sim, fiz a loucura de largar o emprego dos sonhos para fazer o que realmente amo”. Acho engraçado isso.

Sair da zona de conforto nunca foi um ato desse tipo de loucura. Apesar disso, parece que as pessoas gostam de crer que sim.

É um negócio risível, principalmente porque se leva a sério. Ao contrário do bem-humorado “loucura!” que o trabalhador aqui perto de casa gosta de falar.

Ambos os usos de loucura são vagos, se pararmos pra pensar. Só que o desse trabalhador tem a leveza do sarro. Ele se diverte junto com os colegas – mesmo pendurados a dezenas de metros do chão, enquanto renovam a pintura da fachada de um prédio.

Loucura, não?
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Foto: Henrique Inglez de Souza