Fla Mingo: “Foi pela arte que consegui me libertar”

Natália Guissoni/Divulgação

Esse álbum é espetacular, em todos os sentidos. Tem um repertório criativo, inspirado, que envolve. São sete faixas que passeiam por sonoridades variadas do rock. Esquina é visual, performático, exatamente como a persona dessa figuraça chamada Fla Mingo.

Cantor e compositor paraibano, Fla Mingo é um genuíno artista. Com as cores e a garra de quem respira sua paixão e sem a vaidade chata de rede social. Lançado pela emblemática Baratos Afins, o trabalho é resultado de seu entrosamento afiado com a banda – Pedro Lauletta (bateria, backing vocais), Pedro Zanchetta (guitarra solo), Alexandre Lopes (guitarra) e Rafael Plaza (baixo).

Também têm sua contribuição no resultado a designer Dayane Bonfim, a fotógrafa Natalia Guissoni e o técnico de som Caio Zé, que ajudou a costurar tudo durante a fase mais crítica da pandemia.

Esquina soa plural. Nada como o nascer de um projeto em que há muita paixão embutida, certo?
Exatamente! A ideia era lançar antes da pandemia. Vínhamos preparando as músicas desde 2017. Durante a gravação das vozes, aconteceu a covid-19. Tudo parou, a vida parou, o mundo parou. Tivemos que deixar o material no congelador.

Aí, pela internet, começamos a mixar o material, sempre orientando pelo Caio Zé. Meu último lançamento, eu ainda estava em João Pessoa, saiu em 2008. Esquina tem releituras, músicas mais antigas, mas é tudo com roupagem nova. E tem duas inéditas, da nova safra – Homem do Espaço e Pensar é Perigoso.

Fizemos com muito carinho, detalhado. Realmente, é muita paixão envolvida. Algo que amamos fazer. Amamos o palco, mas produzir também é muito gostoso. Estar dentro do estúdio, pegando nossos ingredientes e fazendo aquela receita maravilhosa que resultou nesse trabalho, que está sendo muito bem recebido. Parte de nossas vidas está nesse disco.

Você fala para alguém, especificamente?
Não há um público específico. Nosso público é exatamente o que se faz naquele momento. Em minhas músicas, há referências de bolero, Jovem Guarda – que eu amo –, das cantoras de rádio. Nosso público é muito diversificado. As pessoas vão aos nossos shows, se identificam e, quando você olha, estão dançando, curtindo, acenando pra gente, batendo palmas. Isso que é legal!

A diversidade existe no nosso trabalho, na nossa arte. Não há fronteiras. Gostou do som? Venha dançar com a gente, curtir nosso som, e vamos fazer desse momento único. Faça do seu momento único quando estiver ouvindo, se transporte. Dê-se ao luxo de transcender. É isso que é a Fla Mingo!

Você se considera uma pessoa resiliente?
Me considero, sim. E acho que, mais do que nunca, hoje em dia temos que ser. A vida não é feita só de beleza. É feita de atropelos, quedas, pedras no caminho, e o mais legal durante essa jornada é se superar. Não se sentir coitadinho. É levantar a cabeça e seguir em frente. Você está aqui, neste mundo, então, tem que fazer algo. E é exatamente durante essa jornada que a vida merece ser vivida, que temos de dar a cara a tapas para sermos realmente seres humanos. E procurar nossos ideais.

Felipe Ferracioli/Divulgação

Gostei das letras. Descontrole é um falso aviso de que o disco possa ser deprê, mas pega outra direção.
Eu tenho essa coisa de soar um pouco deprê. Mas, não. A vida é feita disso, entendeu? De amores encontrados, amores não encontrados, portas que se abrem, portas que se fecham, portas que nunca abrem e você tem que abrir, procurar outro caminho através de uma janela. Você sempre encontra seu caminho e aquele raiozinho de sol que precisa para se reerguer e seguir em frente. Descontrole fala um pouco disso.

Homem do Espaço é uma viagem divertida.
É minha homenagem ao David Bowie. Tem um pouco dessa coisa de que você transcende. É como se eu tivesse tido uma visita do Bowie no meu quarto em João Pessoa. Ele chega e batemos um papo sobre livros, literatura, arte. Pega meus discos e me ensina: “É assim que se requebra”.

A Super-Tra, o que quer dizer esse título?
“Super-Tra” significa super-travesti. Ou pode ser super-trans, que está em alta hoje em dia – não por moda, mas por uma galera, lá atrás, vir ralando bastante por direitos – independentemente de sexo, ideologia, cor. São pessoas lutando por seus direitos. Tento falar disso de maneira suave nessa música.

Quero dizer que não é algo que você tenha que manter escondido, sabe? Quebrar tabus, quebrar paradigmas. Chega, somos todos iguais! E é isso o que também levamos como lema para a banda. Meu visual, minha postura como artista, o que escrevo, meu respeito para com o próximo. Isso já é levantar uma bandeira.

“Super-tra” é uma expressão que eu usava em João Pessoa com meus amigos gays. Quando nos encontrávamos, principalmente na loja de discos em que eu trabalhava, fazíamos uma brincadeirinha, em 2004, 2005.

Temos que respeitar o gênero de cada pessoa, o que ela quer ser, o que escolher ser. É isso que temos que respeitar. Então, A Super-Tra é super-travesti, essa figura emblemática que representa toda uma geração. E a luta continua.

Natália Guissoni/Divulgação

Pensar é Perigoso, uma bela faixa.
De cunho político e social, tem referências a 1984, de George Orwell, e O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon – amo muito esse livro. E trata de causas que estão super em voga, também: ecologia e Amazônia.

O que representa se expressar pela arte?
A arte representa tudo para mim. É meu alimento da alma, do corpo, do coração, da mente. Representa minha vida. Foi pela arte que consegui me libertar. A arte liberta, né? Parece clichê, mas não é. A arte realmente liberta.

Se não fosse a arte, provavelmente, não estaria vivo. Foi com a música que consegui colocar para fora todos os meus fantasmas, sabe? Tudo que estava engasgado, que não conseguia falar, que queria expressar e não podia, muitas vezes, por ser reprimido até mesmo pela sociedade.

Sou eternamente grato à arte por ter me salvado e por continuar me salvando. Por fazer de mim um meio de comunicação para outras pessoas de maneira consciente. A arte é… putz, é o ar que eu respiro!

Quanta honra sair pela Baratos Afins, não?
Nossa, maravilha ter a honra de um trabalho pelo selo Baratos Afins! É algo grandioso para qualquer artista. E não é de agora que rola esse namoro com eles. Quando vim morar em São Paulo, o Luiz Calanca foi a primeira pessoa que abriu as portas para mim, em 2009.

Foi a primeira pessoa que acreditou em mim. Me colocou num projeto na Galeria Olido, o Rock na Vitrine. Em 2012, consegui entrar na Virada Cultural pela Baratos Afins. Esse disco é algo construído de respeito mútuo: nós com a família Baratos Afins e o mesmo carinho, recebi de volta.

A Baratos Afins lançou material do Arnaldo Baptista, Itamar Assumpção, Lanny Gordin… muita gente! É um selo que temos que ter muito respeito pela história. Então, é maravilhoso! E quero muito que essa parceria se prolongue e que novos frutos sejam colhidos e espalhados.